07 // Epifania e Murakami
"A verdade não se encontra na imobilidade fixa, mas no movimento constante".
A última vez que li a palavra epifania foi no livro do Murakami, Novelist as Vocation, quando ele conta como decidiu ser escritor.
Murakami estava em um jogo de baseball em 1978 e descreve que, ali, teve uma epifania: I think I can write a novel. Até aquele momento, como ele não tinha o menor interesse em trabalhar em empresa e seguir a carreira tradicional que ele via no Japão, tinha um espaço onde pudesse ouvir jazz, tomar café e servir alguns drinks (queria ser amiga dele!!! haha).
Ele e a esposa já eram casados, não tinham dinheiro, e passaram anos pegando vários empregos ao mesmo tempo. Com tudo que conseguiram juntar (mais alguns empréstimos de amigos e família), abriram um pequeno bar/café em Tóquio. Murakami comenta que naquela época era mais fácil abrir um negócio simples, uma era que você poderia encontrar brechas no sistema.
Depois do jogo, pensando no que havia sentido, Murakami pegou um trem até Shinjuku e comprou papel e caneta. Ele descreve os primeiros momentos escrevendo como algo cheio de entusiasmo e fresco. E, bem… de 1978 até aqui, a história a gente já sabe. Hoje, com 76 anos, mais de vinte livros publicados e inúmeros prêmios, ele é considerado um dos autores mais famosos do mundo.
No fundo, analisando o pouco do que leio sobre como Murakami é até hoje, penso que ele só queria uma vida mais tranquila. Queria seguir a rotina dele com disciplina, mais recluso e com poucas aparições públicas. Talvez por isso a vida do bar - com toda a socialização que exige - não combinasse tanto com a epifania que havia sentido acontecer: a de se tornar escritor.
Resolvi contar brevemente essa história da epifania do Murakami porque, desde então, fiquei pensando nessa palavra, nesse momento, nesse sentimento. Talvez porque dizer que você teve uma epifania soe mais interessante do que dizer que teve um insight. Ou talvez porque eu estivesse querendo ficar mais sensível aos meus próprios questionamentos, sentimentos… e perceber quando algo poderia ser, de fato, uma epifania chegando.
Quando penso mais sobre, até associo àquele sentimento que a gente cria ao ver relações amorosas nos filmes de Hollywood. A gente cresce achando que o que vamos sentir será algo espiritual, mágico, quase cinematográfico. Quando, na verdade, às vezes é apenas um pensamento, um sentir que fala mais alto do que todos os outros.
Dizem que as melhores ideias surgem quando relaxamos, quando estamos fazendo algo que gostamos. Mas muitas vezes elas também aparecem no desespero, na angústia, no incômodo, assim como foi com meu pai. Sempre que conversava com ele sobre como se tornou piloto, sentia que ele também tinha vivido algo parecido… um despertar que veio acompanhado de uma urgência pela própria sobrevivência. E, mesmo assim, foi isso que o levou a encontrar sua paixão.
No entanto, lembro também do José, proprietário do restaurante La Glória, que conheci em Mendoza, dizendo que a maioria das pessoas vive sem esse despertar e passa a vida meio adormecida. E que, segundo ele, “la vida es más hermosa para la gente que tiene la sensibilidad de poder sentir los caminos.” E pra sentirmos esses caminhos, é preciso presença, percepção e uma vontade grande de mudar e evoluir para o que fizer mais sentido pra você.
Rômulo Carvalho, um perfil do Instagram que conheci recentemente, através do amigo da padaria que comentei tanto por aqui, traz muitas reflexões sobre esses mesmos sentimentos e processos de mudança.
Em uma de suas inúmeras caminhadas e falas, Rômulo diz que todo mundo pode mudar. Que sim, as condições sociais, financeiras e tudo o que envolve o lado externo são diferentes pra cada pessoa… mas que a mudança não é só externa. Mudanças internas são possíveis pra qualquer um, embora exijam um esforço maior ou menor, dependendo da história, dos traumas, do contexto de cada um.
No entanto, quando decidimos acreditar nessas mudanças e nos guiar por esses despertares, epifanias, insights, fica claro que nem tudo que é verdadeiro é compreendido ao mesmo tempo pelas pessoas ao nosso redor. Porque, segundo ele, “escolhas autênticas quase sempre geram estranhamento, já que rompem com o previsível. E o previsível é confortável pra quem olha, não pra quem tá vivendo.”
Enquanto estou aqui analisando o termo epifania, revisitando tudo que Murakami significou pra mim, como ele apareceu nas minhas leituras, também vou montando uma playlist no Spotify chamada new cycle / 20261.
Eu já tinha ouvido falar do Murakami quando ainda estava no Brasil, mas só o associava ao livro de corrida. Foi em Bangkok, me envolvendo com um barista canadense que conheci no café Kaizen, que comecei a ler. Kaizen em japonês significa mudar para o melhor e, bom penso que depois que encontrei o barista, minha vida ficou bem mais interessante. Foram duas semanas provando cafés frescos diariamente enquanto ele, pelado, abria mais um saco de grãos entre tantos que carregava na mala. Na nossa despedida, ele me deu Norwegian Wood. Disse que eu iria gostar de ler. E talvez porque eu ainda quisesse continuar um pouco daquela história, o livro me trouxe essa sensação de continuidade com ele, que já estava partindo pra outra viagem de negócios.
Terminei Norwegian Wood no café La Cabra em Bangkok, onde tínhamos passado uma tarde juntos. Como alguém que acredita em ciclos e karmas, escrevi uma nota no livro e deixei lá.


Desde então, me apaixonei pela escrita do Murakami, que em alguns momentos parece a de um menino falando de “coisas de adulto”. Há uma ingenuidade bonita ali, um jeito de olhar a vida como ela é: com solidão, desencontros e encontros amorosos, identidade, memória e essa busca constante por sentido. Fui me identificando com esse sentimento.
Continuei lendo Murakami pela Tailândia, pela Austrália e pelo Japão, e fui entendendo que as epifanias talvez sejam justamente isso: sentimentos mais fortes do que a gente planeja ou gostaria de ser. A vida te guiando por caminhos bagunçados, encontros improváveis e despedidas necessárias.
Com o tempo, fui percebendo que a vida passou a me entregar planos infinitamente mais interessantes do que aqueles que eu escreveria - ou deixaria de escrever - num papel, num bloco de notas ou no celular. E acredito que isso tenha acontecido porque passei a entender que o movimento, pra mim, e as viagens sozinhas eram os meios necessários para as mudanças internas que eu tanto desejava. Não como causa, mas como o caminho. As pessoas com quem fui me conectando, os lugares pelos quais fui passando, as novas ideias que surgiram desses encontros e desencontros.
Acredito muito que temos alguns despertares ao longo da vida, e que precisamos de novos ares e movimentos pra dar o devido seguimento a eles. Murakami escreve, em outro livro, que “Truth is not found in fixed stillness, but in ceaseless change/movement. Isn’t this the quintessential core of what stories are all about?” E, pra mim, epifania talvez seja exatamente isso: a desconstrução de uma identidade que se perdeu tantas vezes em caminhos que não eram seus, e a busca para a reconstrução dos seus próprios.
Um abraço de Florianópolis,
Cami
Se quiser escutar a nova playlist que estou organizando, aqui está o link. Um bom final de ano e um bom descanso!








Vivendo minha epifania agora Cami, essa “desconstrução de uma identidade que já se perdeu tantas vezes em caminhos que não eram seus, e a busca para a reconstrução dos seus próprios”…
Saber do começo da escrita do Murakami aqui no teu texto, me deixou ainda mais curiosa pra ler ele… qual o teu favorito dele?